Tetra Pak aposta em tecnologia e eficiência para sustentar a longa vida dos alimentos

O jornal A Crítica visitou à unidade no interior paulista e viu de perto como a empresa liga tecnologia, envase asséptico e modernização industrial a uma agenda de produtividade, redução de perdas e menor consumo de recursos

Em um país onde a indústria de embalagens movimentou R$ 165,9 bilhões em 2024 e manteve 273.967 empregos formais, falar de uma simples caixa de alimento já não se resume mais a design, impressão ou exposição na gôndola do supermercado.

Por trás da embalagem que chega ao consumidor, há uma cadeia que envolve produção em escala, segurança sanitária, controle de perdas e uma pressão cada vez maior por eficiência no uso de energia, vapor e água. Foi a partir desse cenário que a Tetra Pak recebeu o jornal A Crítica em sua operação em Monte Mor, no interior de São Paulo, a cerca de 35 km de Campinas, para apresentar o que a empresa define como uma atuação que vai além da embalagem.

Na primeira parte desta reportagem, a companhia procurou rebater a ideia de que a longa vida se resume à caixa que chega ao armário da cozinha. O presidente da Tetra Pak Brasil, Tiago Cardoso afirmou que o papel da empresa começa antes e se estende para outras etapas da cadeia.

“Para nós, é um privilégio muito grande estar na casa dos consumidores brasileiros todos os dias. Mas a gente vai muito além da embalagem. O relacionamento com o cliente e aquilo que a gente faz junto com ele vai muito além de uma simples caixa. Nossas embalagens protegem adequadamente o alimento que consumimos”, diz.

Segundo dados mais recentes da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), o setor brasileiro de alimentos e bebidas faturou R$ 1,277 trilhão em 2024, respondeu por 10,8% do PIB, produziu 283 milhões de toneladas e reúne cerca de 41 mil empresas. É esse tamanho que ajuda a explicar por que etapas como tratamento térmico, assepsia e eficiência operacional passaram a ser tratadas como parte estratégica do negócio, e não como detalhe técnico.

Em novembro de 2025, a Tetra Pak informou que a fabricante brasileira Tial recuperou cerca de 70 mil litros de bebida por ano durante o envase com um novo conceito de pasteurização.

Em Monte Mor, a Tetra Pak concentra uma parte importante dessa narrativa. A unidade abriga a fábrica de embalagens, mas também centro de inovação, planta-piloto, centro técnico e estruturas ligadas a serviços e distribuição. Cardoso destacou o peso da operação brasileira dentro do grupo.

“O Brasil é simplesmente o 3º maior mercado do mundo para a Tetra Pak. Nós temos duas fábricas, um centro de inovação, uma planta-piloto e uma série de máquinas de processamento e de envase. A fábrica de Monte Mor, fundada em 1978, sempre foi uma unidade muito complexa, com muitos produtos e com uma importância muito grande para a nossa operação nas Américas”, explica.

O centro da discussão, porém, não está no tamanho da planta, mas na lógica do processo. Durante a visita, foi possível notar que a segurança do alimento começa muito antes da embalagem pronta. Ao detalhar o caso do leite, a diretora de Processamento da Tetra Pak Brasil, Ana Paula Forti, descreveu como esse fluxo acontece nas indústrias de laticínios atendidas pela empresa, e não dentro da fábrica de embalagens de Monte Mor.

“Esse leite chega cru e refrigerado. Enquanto não passa por tratamento térmico, ele precisa ser mantido em baixa temperatura para evitar crescimento de micro-organismos. Depois, ele passa por separação, padronização da gordura e homogeneização. Em seguida, vem o tratamento térmico. Quando esse produto ultrapassa essa etapa, ele entra numa condição asséptica. A partir daí, vai para um tanque totalmente fechado e segue para a máquina de envase sem voltar a ter contato com o ar”, explica.

Em outras palavras, a Tetra Pak não envasa leite em Monte Mor, mas desenvolve e fornece tecnologias que entram nesse processo nas fábricas clientes. E esse deslocamento não é casual.

“Vamos muito além da embalagem. O relacionamento com o cliente e aquilo que a gente faz junto com ele vai muito além de uma simples caixa”, afirma Tiago Cardoso, presidente da Tetra Pak Brasil

Em abril de 2026, a empresa divulgou um estudo segundo o qual a modernização de linhas existentes de processamento de laticínios pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa entre 40% e 49%, dependendo do tipo de linha, além de gerar reduções significativas em custos operacionais. Segundo a companhia, o estudo foi revisado de forma independente pela Carbon Trust e sustenta que parte desses ganhos pode ser obtida sem reconstrução completa da planta.

É justamente nesse ponto que Monte Mor entra como vitrine. A empresa tenta mostrar que, ao falar em alimento seguro, também está indo de encontro com eficiência industrial. Menos perda de produto, menor consumo de recursos e mais controle do processo aparecem, na prática, como partes da mesma equação.

Ana Paula detalhou ainda como a embalagem entra nessa cadeia industrial de clientes. “A bobina de papel entra na máquina e, antes do envase, passa por um tratamento para limpeza e esterilização. O enchimento acontece numa área fechada, sem entrada de ar. Em uma embalagem padrão para leite, você tem camadas de polietileno, papelão, alumínio e novamente polietileno. O alumínio funciona como barreira contra luz, aroma e oxigênio. E há uma camada de polímero em contato com o alimento. Isso é importante porque existe muita desinformação sobre esse ponto”, esclarece.

Ao longo dos anos, a indústria busca explicar que a conservação dos alimentos depende de uma cadeia de controles que o público não vê, e que essas etapas acontecem nas indústrias de alimentos e bebidas que usam a tecnologia da companhia, não na fábrica de embalagens instalada no interior paulista.

“Resultado desse processo é que o produto dispensa conservantes, mantém propriedades nutricionais, preserva sabor, cor e segurança do alimento, além de dispensar refrigeração antes da abertura. Depois que a embalagem é aberta, aí sim há contato com oxigênio, e o alimento começa a se deteriorar”, afirmou Ana Paula.

Eficiência também entra na conta

A associação entre processamento e ganho operacional aparece com mais força quando a discussão sai do discurso institucional e chega aos números.

Em novembro do ano passado, a Tetra Pak divulgou que a fabricante brasileira Tial se tornou a primeira do mundo a adotar um novo conceito de pasteurização desenvolvido pela companhia. Na prática, a mudança foi apresentada como um exemplo de como a indústria de alimentos passou a olhar para a eficiência não apenas como forma de reduzir custos, mas também como parte da própria lógica de produção.

A modernização de linhas de processamento de laticínios pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa entre 40% e 49%, segundo estudo divulgado pela Tetra Pak.

Segundo a empresa, a tecnologia permitiu recuperar cerca de 70 mil litros de bebida por ano durante o envase, além de reduzir em 64,6% o consumo de vapor na produção e cortar em pelo menos 50,3% o gasto anual de água no processo de limpeza dos equipamentos.

É nessa discussão que a Tetra Pak tenta posicionar sua atuação para além da embalagem. Ao apresentar a empresa como parceira de desenvolvimento e de operação dos clientes, o presidente Tiago Cardoso defendeu que a presença da companhia começa antes da caixa impressa e se estende por diferentes etapas da cadeia.

“Nós estamos falando de ajudar o cliente na ideia, na conceituação da proposta de mercado, no desenvolvimento do produto, até chegar na embalagem e no marketing. Dentro da produção, também temos um papel importante, porque fornecemos equipamentos de processamento, o que seria a cozinha do cliente. Temos máquinas de envase com tecnologia que garante a assepsia e evita contaminação do alimento”, explica.

Em Monte Mor, essa tentativa de ampliar o entendimento sobre o negócio aparece na própria estrutura da unidade. Embora a planta seja voltada à produção de embalagens, o local concentra também funções de apoio que ajudam a sustentar a operação da companhia no Brasil e em outros mercados da região. É essa sobreposição entre fábrica, serviços e suporte técnico que a empresa usa para reforçar o argumento de que sua atuação não termina quando a embalagem fica pronta.

O retrato dessa base industrial foi detalhado pelo diretor industrial da Tetra Pak Brasil, Salvador Marino Neto.

“Essa fábrica produz principalmente embalagens e canudinhos plásticos, mas aqui também estão a área de supply chain, o tratamento de imagens e design para toda a América, atendimento a cliente, automação e outras funções. É uma unidade principal nesse sentido. A fábrica de Monte Mor tem uma ligação muito forte com a cidade e com os funcionários”, detalha.

Ao descrever o processo produtivo, Marino mostrou que a complexidade da embalagem está justamente na combinação de etapas que o consumidor não vê. A impressão é só o começo. Depois, entram a laminação, a formação das camadas e a preparação do material que mais tarde será utilizado pelas indústrias de alimentos e bebidas nas linhas de envase.

“Nós temos duas grandes impressoras. A metodologia de impressão é flexografia com tinta à base d’água. Depois disso, a laminadora faz o sanduíche de camadas: papel, plástico, alumínio e os materiais de proteção. Mais adiante, um equipamento faz o vinco, a marca de dobra, que depois permitirá formar a caixinha na máquina de envase”, afirma.

A visita à unidade de Monte Mor acontece no momento em que o Valor Bruto da Produção da indústria de embalagens no Brasil atingiu R$ 165,7 bilhões, representando cerca de 2,8% do total da indústria de transformação, enquanto a indústria de alimentos e bebidas segue entre os principais setores da economia nacional. Nesse contexto, a Tetra Pak vem marcando presença em uma cadeia que vai além da fabricação da embalagem e passa por processamento, envase e eficiência industrial, áreas que hoje pesam tanto quanto a própria caixa que chega à prateleira.

Na segunda parte desta reportagem, o foco será voltado para outro ponto dessa cadeia: o caminho da embalagem depois do consumo, os gargalos da coleta seletiva e o papel das cooperativas na tentativa de fazer esse material voltar ao ciclo produtivo.

O jornalista Carlos Guilherme, do jornal A Crítica, foi convidado pela Tetra Pak para conhecer de perto as instalações da empresa em Monte Mor (SP), no interior paulista.