- Entidade defende transição responsável, que concilie melhores condições para os trabalhadores com emprego, competitividade, abastecimento e segurança alimentar
- 93% das 42 mil indústrias de alimentos e bebidas do país são micro, pequenas e médias empresas, com menor capacidade de absorver aumentos de custos trabalhistas e operacionais
A Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA) reconhece a importância do debate sobre as relações de trabalho e a busca por melhores condições para os trabalhadores. Ao mesmo tempo, diante da proposta de redução da jornada para 40 horas semanais, a entidade chama atenção para a necessidade de avaliar seus impactos sobre custos, produtividade, emprego, preços e abastecimento.
Levantamento conduzido pela ABIA estima que a redução da jornada para 40 horas semanais pode gerar um impacto adicional de aproximadamente R$ 23 bilhões por ano para a indústria de alimentos e bebidas. O aumento decorre da necessidade de ampliar quadros de pessoal, reorganizar turnos produtivos e recorrer com maior frequência ao uso de horas extras para garantir a continuidade da produção.
Para a indústria de alimentos, o debate tem uma dimensão que vai além da gestão das empresas. Trata-se de um setor responsável por produzir e abastecer diariamente o país, em uma cadeia que precisa operar de forma contínua para assegurar o acesso da população a alimentos seguros, de qualidade e a preços competitivos. Por isso, a ABIA defende que eventuais mudanças na jornada sejam acompanhadas de uma avaliação cuidadosa de seus efeitos sobre a capacidade produtiva, o emprego e o abastecimento.
Os impactos tendem a ser especialmente relevantes para as micro, pequenas e médias empresas, que constituem a maior parte da indústria de alimentos e bebidas. Das cerca de 42 mil indústrias do setor espalhadas pelo país, 93% são micro, pequenas e médias empresas, negócios que, em geral, possuem menor capacidade de absorver aumentos abruptos de custos trabalhistas e operacionais.
De acordo com o presidente-executivo da ABIA, João Dornellas, a adoção abrupta do regime proposto poderia elevar significativamente os custos, pressionar toda a cadeia produtiva, ameaçar a sobrevivência de pequenos negócios e, ao final, transferir esse impacto para o consumidor: “É necessário buscar um equilíbrio que permita avançar nas condições de trabalho sem comprometer empregos, competitividade, preços e segurança alimentar”, pondera.
A discussão também precisa considerar o ambiente de competitividade em que as empresas brasileiras estão inseridas. Estudo realizado pelo Movimento Brasil Competitivo (MBC) e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) estima que o chamado Custo Brasil representa cerca de R$ 1,7 trilhão por ano. Nesse contexto, a ABIA considera importante que mudanças estruturais nas relações de trabalho sejam acompanhadas de medidas que estimulem produtividade, inovação e capacidade de adaptação das empresas, especialmente as de menor porte.
Dornellas reforça que a indústria defende que mudanças dessa magnitude sejam construídas com base em diálogo, previsibilidade e avaliação técnica de seus impactos. “É legítimo discutir as relações de trabalho e a qualidade de vida dos trabalhadores. Para a indústria de alimentos, esse debate precisa considerar também a realidade de uma atividade que produz continuamente e tem uma responsabilidade direta com o abastecimento da população”, analisa.